Authares
auf der Strasse e o Auge da Loucura -
o incrível folhetim que descobri numa vídeo-locadora
(reescrever)
Eu estava em permanente conflito até o dia em que vi, na vídeo-locadora, um folheto ao lado de vários papéis de propaganda. Chamava-se "Authares auf der Strasse - o Auge da Loucura". Achei o título lindo, e peguei pra ver do que se tratava.
"Minhas aventuras em Blumenau (1946): Estou com 65 anos de idade (vide foto aí do lado) porém quando eu tinha 16, meu pai enviou eu e meu irmão de 14 anos para Timbó em S.C., onde vivia uma tia nossa que deveria arrumar emprego para nós. Isso aconteceu porque um médico havia falado para meu pai que ele só tinha mais 6 meses de vida e por isso o coitado pensando que fosse morrer tomou esta providência.
A eficiência de minha tia: Assim, tão logo chegamos em Timbó, minha tia conseguiu colocar meu irmão como aprendiz numa pequena fábrica de dobradiças que havia na cidade. Quanto a mim e como eu queria seguir a profissão de desenhista, ela falou com uns e outros até que acabou me colocando como desenhista ajudante na Empresa Força e Luz de Santa Catarina e onde fui trabalhar nas oficinas da Usina Salto que ficava nas proximidades de Blumenau.
A história dos abacaxis: Sempre gostei de comer abacaxis e comer um abacaxi inteiro de uma só vez nunca foi nada de especial para mim, pois já fiz isso inúmeras vezes. Porém, de alguns anos pra cá, não sei o que andam fazendo com os abacaxis, pois hoje estas frutas não prestam mais."
A arte da imaginação em ação: A foto que você está vendo é um auto-retrato do autor tirado há alguns dias de frente para o espelho do banheiro e usando apenas uma câmera do tipo made in China que custou 30 reais. A foto foi batida com flash, filme Kodak, revelação Santana Cine Foto Kodak Express."
O que era aquilo? Com ansiosa curiosidade abro o folheto, vejo que é uma folha xerocada dos dois lados, com tipo de máquina de escrever, e pequenos anúncios no canto com margens feitas a régua. No centro, quatro colunas texto intercalado por subtítulos: a história do colégio que estudei quando era menino no Rio de Janeiro, a estátua do metrô, a história da moça da Costa Rica que casou com um brasileiro que não trabalhava. Meu coração disparou com a simplicidade genial das chamadas. No final, os créditos:
"O Auge da Loucura não é um jornal ou revista e sim um brinde que os comerciantes dão para os seus fregueses a fim de agradá-los como fazem quando dão uma caneta ou chaveirinho. Porém existe uma diferença, pois enquanto uma caneta ou chaveirinho produzem um retorno mínimo, o Auge da Loucura produz um retorno muito maior pois as pessoas gostam de ler esta pequena obrinha de arte e por isso ficam muito contentes com os comerciantes que patrocinam as nossas edições.
O Auge da Loucura custa tão pouco que qualquer firma ou comerciante por menor que seja pode participar. Por isso, se você quer a nossa presença na sua firma para incluir os seus anúncios em nossas edições basta ligar para o autor. Authares auf der Strasse (0122) 52-6551. Somente às segundas de manhã."
Revirei a pilha do balcão da vídeo-locadora, e vi que eram vários números diferente, 116, 117, 118. Era uma mentira, uma piada de algum diretor de teatro que freqüentava a região? Pergunto pasmada à moça que me atende, tentando simular distraída inconseqüência: "O que é esse folheto aqui?" Ela diz: É um velhinho que deixa, de vez em quando. "Como assim, um velhinho?" Ela: o Seu Authares - a gente coloca o anúncio da locadora e ele deixa os folhetos aqui.
Olhei o texto de novo, e não podia acreditar.
"O Auge da Loucura está querendo saber se o suco de uva também faz o mesmo efeito: A televisão anda falando que nos países onde o povo bebe vinho nas refeições, ocorre um menor número de casos de enfartes do que nos países onde não se bebe tanto vinho como nos Estados Unidos, onde o índice de mortes por enfartes é muito alto. Por isso, e como o vinho de boa qualidade custa caro, o Auge da Loucura quer saber se o suco de uva que é mais barato também faz o mesmo efeito. Se você é médico ou pessoa que entende de vinhos, por favor escreva-nos uma carta informando pois isso é um assunto que interessa a muita gente, e não só agradeceremos a sua atenção como também prometemos publicar sua carta, tão logo ela chegue até nós. Authares auf der Strasse, Rua Santa Isabel 289, Caçapava SP, 12280-000".
Não era possível. Mas havia no xerox uma foto do velho de chapéu e de óculos, bigode e uma cara fechada. Tudo era tão rústico que não podia ser simplicidade fingida. É impossível forjar a tal ponto. Ao mesmo tempo o texto era sofisticado e surpreendentemente bem escrito. Mas a idéia que tinham me passado de que não havia talento perdido, pois quem tinha talento bem ou mal chegava em algum lugar? Então como explicar aquilo?
Separei todos os números diferentes que havia na locadora, levei pra casa, e li de cabo a rabo. Nos anúncios laterais, o 2° cartório de notas (Wanderley), escrituras, contratos, distratos e autenticações de firma, rua 14 de abril 63, fone 52-3444, centro, Caçapava - Cesta básica Silva Soares Caçapava Ltda. - Clínica veterinária Mundo Animal - Romano Verejão de Bebidas.
Naquela época não havia cartões de telefone, eu também não tinha telefone em casa, e fazer interurbano de orelhão era difícil. Mas fui até a central da Telesp, e liguei para o número do Seu Authares. Era um escritório, e ele não estava. O homem que me atendeu foi muito prestativo, anotou o recado, e prometeu enfaticamente que entregaria. Como eu não tinha telefone, deixei o número do meu bip. Cinco dias depois, recebo uma mensagem: ligar para Sr. Autres, fone (0122) 52-6551. Ligo. No escritório chamam, e aparece uma voz de velhinho.
- Alô, é o senhor... (eu não sabia direito como pronunciar) Autáres?
- Sou eu, o Áutares.
- Sr. Áutares, vi seu folheto na locadora Concorde. Eu queria saber... quanto o senhor cobra o anúncio?
- Olha: se for o maior, são trintas reais. O menor, são quinze. Eu coloco a anúncio em quatro folhetos, um a cada semana, e ainda lhe dou cinqüenta cópias pra senhora distribuir pra seus clientes.
- O senhor... faz como? Eu lhe mando o dinheiro pelo correio?
- Pode ser, filha. Ou então quando eu vou pra São Paulo, como uma vez por mês, eu lhe aviso e daí lhe entrego o material pessoalmente.
- Então tá bom.
- A senhora quer colocar o anúncio?
- Quero.
- Então diga. Aí já coloco no próximo número, e quando lhe der os folhetos já tem o anúncio da senhora.
- Mas já?
- É. Diga.
- Bem... Coloca assim: Sabina... Mas meu sobrenome vou ter que soletrar.
- Pode dizer.
- É Anzuategui. A, n de navio, z de zebra, u, a, t de tatu, e, g de gato, u, i.
- Anzuateguí?
- Anzuatégui.
- Ah. E o que mais?
- Daí põe: aulas de redação e roteiro de cinema. Bip 253-4545, código 23948.
- 011?
- 011.
- Posso colocar Professora Sabina?
- É... pode...
- Então tá certo. Daqui a uns quinze dias devo ir a São Paulo, e entro em contato com a senhora.
- Tá bom, então.
- Então boa tarde.
Eu estava plenamente envergonhada, imaginando meu nome naquele folhetinho, imaginando que a moça da locadora talvez percebesse, e fosse me perguntar se eu era professora, se eu conhecia roteiro de cinema. Mas de alguma maneira eu tinha que entrar em contato com aquele homem, verificar se a história era verdadeira ou não, e se fosse, incentivá-la de alguma forma. Também queria saber mais, por que ele escrevia aquilo, onde havia aprendido, como podia ter um texto tão moderno atrás de tanta simplicidade?
"O vírus que ataca na cabeça: O Auge da Loucura transmite um vírus invisível e altamente contaminante que ataca na cabeça das pessoas. Por isso, se você já leu este folheto até aqui, você já está irremediavelmente fisgado. O efeito deste vírus é diferente dos demais porque enquanto os outros fazem mal para humanidade este só faz bem.
Os cigarros agora são radioativos: Os cigarros fabricados no Brasil estão contendo 11 vezes mais partículas de tório e urânio radioativos que os cigarros estrangeiros. É por isso que os cigarros nacionais estão produzindo tanto câncer. Siga a seqüência das historinhas pela ordem de numeração indicada nas páginas.
O gerente do banco devolveu o dinheiro que estava faltando pelo correio: Até outubro de 89 eu trabalhava para um firma de engenharia em Santo Amaro, mas como o trabalho que eu estava fazendo havia terminado fui mandado embora pois eles não precisavam mais de mim. O que, aliás, deu muita dor de cabeça para receber os meus direitos pois como o pessoal que trabalhava no Ministério do Trabalho estava de greve, não havia como fazer a homologação da demissão e portanto, tive que esperar mais de 1 mês com o meu dinheiro parado no banco até que depois de muita insistência da minha parte, a firma concordou em liberar meu fundo de garantia porém antes, tive que assinar uma declaração de que estava tudo em ordem e tal.
Por isso, tão logo eles assinaram o papel, fui na agência do Banco Itaú em Santo Amaro e fiquei mais de 2 horas na fila até que cheguei no caixa e recebi o dinheiro e que, era pouco mais de 8.000 cruzeiros e cujo montante exato, não me recordo mais no momento.
Mas como eu estava cansado e chateado por ter permanecido todo aquele tempo naquela agência cheia de gente e mal ventilada eu simplesmente peguei o macinho dos 8.000 que o caixa me deu envoltos por uma liga e pus no bolso do lado esquerdo da calça sendo que o resto do dinheiro eu pus no outro bolso da calça.
Porém eu fiz isso sem contar o dinheiro pois o que eu queria era me safar o mais rápido possível daquele lugar.
E assim, eu saí do banco e lá fora, peguei o primeiro ônibus executivo que ia passando para a cidade pois eu queria ir num banco que ficasse mais no centro a fim de aplicar o dinheiro para depois ir sacando aos poucos conforme fosse precisando.
Por isso, quando cheguei no centro, fui no Banco Cidade da Galeria Metrópole e onde as pessoas já me conheciam e pedi para a moça que me fizesse uma aplicação de 8.000.
A moça bateu o formulário na máquina de escrever e quando ela terminou dei o macinho dos 8.000 para ela, exatamente como havia recebido do banco em Santo Amaro pois eu não havia mexido no dinheiro e aí a moça tirou a liga e contou o dinheiro.
- Sr. Authares, está faltando 100 cruzeiros.
- Mas como? Não pode ser pois eu recebi esse dinheiro agora há pouco na agência do Banco Itaú em Santo Amaro.
- O Sr. contou o dinheiro?
- Não.
- Pois o Sr. deveria ter contado pois não se recebe dinheiro sem contar.
Aí eu peguei uma nota de 100 que eu tinha no outro bolso e dei para a moça para completar a aplicação.
Porém, fiquei encucado com aquilo e por isso, no outro dia, peguei a máquina de escrever e mandei uma carta para o gerente da agência do Banco Itaú em Santo Amaro contando o que havia acontecido e argumentando que devia ter havido uma sobra de 100 cruzeiros no fechamento do caixa daquele dia, o que, na certa foi constatado pelo gerente pois alguns dias depois, chegou pelo correio, uma ordem de pagamento no valor de 100 cruzeiros e que me foi enviada pelo gerente.
Depois o dinheiro acabou: Depois passaram-se alguns meses durante os quais andei procurando emprego mas como não achei, o dinheiro foi diminuindo até que acabou.
Eu mesmo cortava meus cabelos: E com isso, voltei a dançar o pagode da dureza e por isso, como eu não tinha mais dinheiro, comecei eu mesmo a cortar os meus cabelos o que, não é uma coisa muito difícil pois basta apenas molhar as pontas como faz o barbeiro e arrepiá-los e ir cortando aos poucos na frente do espelho como se você estivesse podando um planta. É claro que não fica uma coisa perfeita, porém dá pra passar e no meu caso, nunca ninguém falou que os meus cabelos estavam mal cortados ou que estivessem parecendo como a cabeça de um punk.
A origem do nome Auge da Loucura: Foi um jornalista que uma vez, talvez querendo me insultar me falou isso ao ver umas publicações que eu fazia antes desta que faço agora:
- Isso que o Sr. está fazendo é o AUGE DA LOUCURA!
Não sei qual foi o fundamento que motivou esta pessoa a falar assim, porém uns 15 dias depois, quando eu estava deitado, de madrugada na cama refletindo, me ocorreu num lance súbito de inspiração que eu podia usar a expressão do jornalista como título para a nova série de folhetos que eu estava querendo começar."
A história do Auge da Loucura: A parir de 1975 comecei a ter problemas com a minha profissão pois fiquei desempregado e como na ocasião já existia uma certa recessão e como eu também já estava com 45 anos de idade ninguém queria me contratar.
Por isso, fui trabalhar como corretor de imóveis no escritório do Olineu Rocha e acabei perdendo o carro e outros bens que possuía. E assim, como o dinheiro não entrava, fui deixando de pagar o aluguel da casa onde morava na Vila Mariana em São Paulo e por isso o proprietário acionou a Justiça e esta, generosamente, me jogou na rua com família e tudo o que aconteceu no final de 76.
Aí, sucedeu que uma pessoa da minha família veio aqui em Caçapava e alugou uma casa que estava caindo em pedaços e onde viemos morar. Depois, continuei trabalhando com imóveis e minhas peripécias nesse campo culminaram com contatos que consegui fazer com 2 príncipes árabes do Emirado do Dubai e com quem tive a oportunidade de jantar no Rio de Janeiro.
E com isso foram se passando os anos de 77, 78 e 79 mas como eu só trabalhava com ilusões e não conseguia ganhar dinheiro, eu orava a Deus pelos meus problemas e assim Deus me sustentava por meios imprevistos assim como fez com o profeta Elias que foi sustentado pelos corvos que levavam alimento pra ele.
Depois em 81, um amigo me convidou para ir ao Acre para dirigir uma obra que ele estava construindo para o governo federal no meio da selva, e quando voltei em 82, estava acontecendo uma terrível crise no campo da construção e não havia meio de se conseguir trabalho pois estava tudo parado.
Por isso, fiquei 13 meses procurando trabalho e como não encontrava fiz um pedido para Nossa Senhora para que me desse uma luz que me permitisse viver nessas sucessão de altos e baixos que eu vinha enfrentando desde 75.
E foi assim que a luz se fez na minha cabeça na forma de uma sugestão para que eu escrevesse um livro.
Mas como eu não tinha um enredo e nem um assunto específico pra escrever eu improvisei e simplesmente contei a situação na qual eu me encontrava e completei com uma série de coisas que me vieram na cabeça. E acabei escrevendo um livrinho de 20 páginas. Este livrinho foi um sucesso de vendas e assim, todos os dias eu saía com 100 livrinhos que eu punha numa sacolinha e ia na via Dutra e pegava uma carona e ia nas cidades vizinhas e vendia os livrinhos.
Fiquei mais de 2 anos fazendo isso, porém no início de 86, amigos que eu conhecia há mais de 30 anos me convidaram para trabalhar num escritório de arquitetura em São Paulo e por isso o trabalho dos livrinhos foi interrompido.
Quando o trabalho neste escritório acabou, fui despedido outra vez e como isso aconteceu mais ou menos na mesma ocasião do plano Collor que abocanhou o dinheiro de todo mundo, eu quis, então, recomeçar o negócio dos livrinhos que havia dado tão certo antes.
Mas como isso havia se tornado inviável, pois ninguém tinha dinheiro, foi aí então que num feliz golpe mental tive a idéia de inventar os folhetos do Auge da Loucura, que são uma coisa muito mais ágil e eficiente do que os livrinhos que eu havia feito na outra crise."
Eu finalmente encontrei o velhinho, e além dos folhetos com o meu anúncio ele me entregou uma coleção dos volumes antigos.
No número 1, estava escrito assim:
"A melancia quadrada: A televisão mostrou um tipo de melancia diferente que existe na China.
É uma melancia quadrada como um pequeno caixote."
home - sabina r. anzuategui - julho 2000 - sranz@terra.com.br